Tecnologia Social 2013

A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) foi uma das ganhadoras do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2013, na categoria “Gestores Públicos”. O projeto vitorioso foi a metodologia para conversão do sistema de irrigação do perímetro Mandacaru, no semiárido baiano, desenvolvido pelos técnicos Rodrigo Franco Vieira, Frederico Calazans e Juan Ramon Fleischmann. A cerimônia de premiação foi realizada na noite de terça-feira (19), no Teatro Oi, no Hotel Royal Tulip, em Brasília (DF).

 

A metodologia idealizada pelos técnicos da Codevasf constitui-se de pequeno reservatório escavado na terra e dentro do lote, de onde é retirada a água por meio de bomba, que pressuriza e leva o líquido por meio de pequenas mangueiras plásticas, de aproximadamente 33 mm de diâmetro e com pequenos furos, por onde a água goteja sobre a planta. Dependendo da cultura, a técnica utilizada é a de microaspersão, que funciona de maneira semelhante, só que a mangueira não possui furos, e a água é aspergida por meio de pequena haste cravada na terra com um microaspersor na ponta, que distribui a água em uma pequena área próxima à planta.

 

Entre os benefícios do sistema estão o fim do desperdício de água, maior eficácia dos produtos químicos, melhor desenvolvimento da planta, economia de energia elétrica, redução dos custos de produção e melhoria da renda do produtor.

 

“Essa premiação é um reconhecimento da responsabilidade social que a Codevasf tem no desenvolvimento de suas ações. A tecnologia social compreende produtos, técnicas e metodologias que podem ser reaplicadas por meio de interação com a comunidade e representam soluções para transformação social. Toda ação que a Codevasf desenvolve é uma ação de transformação social. Esse prêmio é também um reconhecimento do trabalho da empresa na área de irrigação, onde temos uma grande expertise”, explica Calazans.

 

Tecnologia inovadora

 

Segundo um dos idealizadores da experiência, o engenheiro agrônomo Rodrigo Franco Vieira, as ações começaram há mais de três anos, em um dos lotes do Mandacaru, o de número 38, onde eles fizeram estudos sobre as necessidades do lote, a oferta de água necessária para o desenvolvimento da produção e o melhor sistema de irrigação a ser utilizado.

 

Basicamente os perímetros irrigados funcionam com uma estrutura hídrica composta por sistemas de captação e distribuição de água e drenos de escoamento da água não utilizada ou de chuva. No sistema mais tradicional de irrigação, a água é bombeada do rio e levada, por gravidade, através de canais abertos até os lotes, onde, por meio de valas ou subcanais, é jogada na terra através do uso de sifão.

 

Esse sistema apresenta problemas como desperdício de água, seja pela evaporação, vazamentos, seja pelo excesso do líquido; erosão do solo e contaminação do meio ambiente, pois a água carreia os produtos químicos utilizados na produção. Esses foram alguns dos fatores que motivaram os técnicos da Codevasf a buscar uma alternativa sustentável para o exercício da atividade agrícola irrigada.

 

Depois de implantado o novo sistema, testado e colhidos os bons resultados, tudo num período de um ano, o trabalho foi apresentado para todos os pequenos produtores do Mandacaru. “No início, os produtores estavam um pouco arredios, mas com a ajuda dos serviços de assistência técnica que a Codevasf disponibilizou no início do projeto, e com palestras, visitas e demonstrações técnicas, conseguimos convencer os produtores a acreditarem e comprarem a ideia”, explica Calazans.

 

De acordo com ele, hoje os produtores já estão convencidos dos benefícios econômicos, sociais e ambientais do uso desse sistema de irrigação, mas ele observa que ainda há alguns produtores que precisam de um acompanhamento mais intenso, principalmente os produtores de cebola. “Eles ainda querem manter aquela prática de irrigar a planta mais do que necessário”, nota.

 

Resultados já colhidos

 

O agricultor Nilton Alves Nunes é testemunha dos bons resultados do novo sistema de irrigação. Ele, que é um dos fundadores do perímetro Mandacaru, afirma que “melhorou 100%, pois a quantidade de água que se usa hoje é um quarto da que se usava. Acho que minha economia de água é de 80%, e tem gente aí tirando 45 a 50 toneladas de cebola por hectare, e de melão também”.

 

Os bons resultados animaram também o estudante Erick Cesar Saraiva, de 22 anos, que há quatro anos começou a trabalhar no lote com o pai. Solteiro, sendo o mais novo de quatro irmãos, só ele e o pai moram na agrovila Mandacaru I. “A produção dobrou. Antigamente a gente tirava umas oito toneladas de melão por hectare, hoje chega a 45 toneladas. A cebola era de 500 a 600 sacos por hectare, hoje chega a 2, ou 2,5 mil toneladas por hectare”. Pai e filho trabalham em uma área de 19 hectares, divididos em dois lotes, os de números 33 e 34. “Estou satisfeito”, afirma o agricultor Pedro Bernardino, que tem uma área de 15 hectares. “Hoje a produção é boa, economizamos em mão de obra e em gastos na adubação”, comemora.

 

Segundo os estudos realizados até hoje, houve uma economia de aproximadamente 50% do total de água utilizada na irrigação em todo o perímetro, já que o bombeamento anual de água foi reduzido em 21%, e houve um aumento da área plantada em torno de 23%. “Acreditamos que o projeto logrou êxito, teve um resultado bem positivo, tanto é que atualmente a Codevasf deve firmar um contrato com uma empresa para fazer a implantação da conversão nos perímetros de Bebedouro, em Petrolina (PE), e Maniçoba, Curaçá e para os pequenos produtores do Tourão, aqui em Juazeiro”, comemora Rodrigo Vieira.

 

“Nossa melhor propaganda foi o boca a boca. Os produtores daqui e de outros perímetros conversavam entre si e o resultado foi esse: todos os demais querendo fazer também a mudança do sistema. E a Codevasf foi sensível para isso, e está apoiando a ideia” diz Calazans. Para ele, “esse é o futuro da irrigação – utilizar cada vez mais a tecnologia disponível para a redução significativa do consumo de água, usando somente o que a planta precisa, sem desperdício; afinal, a água é um bem que deve ser usado de maneira consciente e sustentável”.

 

Prêmios nacionais

 

A mudança no sistema de irrigação realizada no perímetro Mandacaru já concedeu à Codevasf o prêmio ECO 2009 (promoção da Amcham e do Jornal Valor Econômico), na categoria Sustentabilidade em Novos Projetos, atribuído pela primeira vez ao Nordeste; e o Selo Diamante, concedido em 2011 pela organização não-governamental Ecolmeia, de São Paulo. Além disso, foi classificado em 4º lugar no Prêmio ANA 2012, entre 286 inscritos. A experiência de conversão do sistema de irrigação do Mandacaru também foi apresentada no Fórum de Sustentabilidade Empresarial da Rio+20, realizada no Rio de Janeiro em 2012.

 

Projeto Mandacaru

 

O perímetro irrigado Mandacaru, implantado pela Codevasf em 1973, está localizado a cerca de dez quilômetros da sede do município de Juazeiro e atualmente é composto por área irrigada total de quase 800 hectares, sendo que 419 hectares estão distribuídos em 54 lotes para pequenos produtores; e 350 hectares, para empresas. A tradição de culturas no perímetro é de manga, cebola, melão e cana de açúcar. No ano passado o valor bruto da produção ultrapassou R$ 9,03 milhões.

 

Para saber mais, acesse o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=xgnYb_j3JPY&feature=youtu.be

http://www.codevasf.gov.br/noticias/2013/codevasf-recebe-premio-tecnologia-social-2013-da-fundacao-banco-do-brasil